CHUTAR PRA FORA É TÃO MEMORÁVEL QUANTO MATAR ABELHAS

Pergunte para algum fã de futebol quem foi Fabio Grosso e alguns saberão te responder. Pergunte para qualquer pessoa quem foi Roberto Baggio e quase todas saberão te responder. Isso se deve ao fato de que, na vida, os erros sempre ofuscam os acertos. Como diz meu pai: “se você tiver um saldo de 99 acertos e um único erro, será lembrado pra sempre por esse erro”. É uma verdade dura e crua que precisamos aceitar. A vida fica mais leve quando sabemos que, não importa o quanto nos esforcemos, sempre seremos marcados pelos deslizes.

Caso você esteja se perguntando quem são Fabio Grosso e Roberto Baggio: o primeiro foi um jogador que, na Copa do Mundo 2006, acertou o pênalti que deu à Itália o tetracampeonato na final contra a França. O segundo foi o jogador que, na época considerado o melhor do mundo, carregou a Itália nas costas durante toda a Copa de 1994, mas chutou pra fora o último pênalti da disputa na final contra o Brasil. Dois jogadores do mesmo país. Duas situações. Um acerto que se apagou no tempo e um erro que se eternizou na história do futebol.

Se pararmos pra analisar a comparação, notaremos claramente que ela não é tão similar. De um lado temos um jogador que marcou um gol e, do lado oposto, temos não apenas o jogador que chutou pra fora, mas o jogador que na época era eleito o melhor do mundo, colecionando gols e momentos formidáveis no futebol. Porém, nada disso é capaz de ofuscar aquele pênalti desperdiçado. Isso prova o quanto meu pai estava certo ao me aconselhar sobre o peso que os erros têm em nossa vida.

O acerto, apesar de ser mais difícil de ser alcançado, logo é esquecido. Errar é sempre mais fácil e memorável. Como disse Homer Simpson: “Para ser uma pessoa boa, você tem sempre que fazer o bem. Mas para ser uma pessoa má, você não precisa fazer nada”. Isso se aplica a todas as esferas da vida. Precisamos nos esforçar constantemente para manter uma postura socialmente aceita e, mesmo assim, estamos fadados ao esquecimento no primeiro deslize. Mas, se nos anularmos numa postura neutra e indiferente, não tardará até sermos eternizados pelas críticas destrutivas.

Nos últimos dois anos eu devo ter matado, no mínimo, 100 abelhas. Pá! Sem pensar duas vezes. É compreensível que tal afirmação não seja bem vista pelas pessoas (ainda mais considerando a importância da espécie para o funcionamento do meio-ambiente). Porém, eu fui obrigado a matar esse número absurdo de abelhas porque, nos últimos dois anos, eu morei em uma casa onde apareciam cerca de três abelhas todos os dias no chão da minha sala. Apesar de ter salvado a maioria delas, fui forçado a matar tantas outras para que meu filho não fosse picado enquanto engatinhava pelo chão. Até nos seus brinquedos eu encontrei abelhas. Vasculhei o terreno em busca de uma colmeia, mas foi em vão. Jamais encontrei justificativa para tantas abelhas.

Após minha explicação, acredito que o assassinato das abelhas se torne mais compreensível. Porém, ainda sim, suas mortes continuarão se sobrepondo as demais que foram salvas. Afinal, no fim, as vítimas sempre ofuscam os sobreviventes da mesma forma que as derrotas apagam as vitórias.

Felipe Attie

Não tem medo de falar o que pensa, mas se assusta com o que pensam a seu respeito.

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