Eu e minha esposa fomos à CADEG comprar, segundo ela, a ornamentação para a festa de dois anos do nosso filho. Pra quem nunca foi ou ouviu falar, a CADEG é o mercado municipal do Rio de Janeiro que conta com uma infinidade de lojas que vendem os mais variados produtos. Em meio a nossa andança (acredite, lá você anda muito), encontramos o que ela tanto procurava.

“Flores mortas?”, perguntei surpreso.

“Não”, retrucou ela. “Flores secas!”

“Mas se estão secas é porque estão mortas.”

“Felipe, cala a boca e segura isso”, disse ela, entregando-me um chumaço de flores que, mal se acomodou em minhas mãos, começou a se desmantelar.

Paramos num boteco pra tomar cerveja e pastéis de camarão. Enquanto saboreava essa combinação perfeita, encarei aquele apanhado de flores e folhas mortas que ocupava a cadeira ao meu lado e questionei como aquilo seria útil na decoração da festa de aniversário de uma criança. Sou do tempo onde festas infantis se resumiam a uma mesa forrada com uma toalha qualquer, algumas bexigas de gás coloridas e um pôster com um desenho de palhaço ou algum super-herói preso na parede com fita crepe.

“É estranho né?”, resmunguei.

“O que é estranho?”, questionou minha esposa, limpando o recheio de camarão que havia borrado sua bochecha.

“Essas flores”, respondi. “Estão mortas e, mesmo assim, você comprou.”

“Ainda esse papo?”

“Eu achava que só vendessem plantas vivas.”

“Cara, fica quieto. Tu não sabe de nada. Isso vai ficar lindo! Você vai ver.”

Apesar de difícil, confiei na minha esposa. Ela devia saber o que estava fazendo. Afinal, ninguém comprar flores mortas sem saber o que tá fazendo. Pagamos a conta e, no caminho de volta pra casa, me peguei pensando no profissional responsável por colher essas plantas. Qual a formação necessária para trabalhar com isso? Como se consegue um emprego desses? O que ele responde quando lhe perguntam sua profissão? Qual a carga horária de trabalho? Imaginei ele acordando todos os dias, tomando café, dando um beijo na mulher, nos filhos, e indo ao campo trabalhar colhendo flores secas. Foram inúmeras questões que aquele simples amarrado de folhas fez brotar em minha cabeça.

Chegamos em casa, minha esposa pegou um jarro de cerâmica, um saco de cascalhos que eu sequer sabia que ela possuía, se ajoelhou no chão da sala e começou a trabalhar com invejável maestria. Fui pra cozinha fazer um café. Já havia desistido de entender aquela situação. Um bom tempo se passou até que ela me chamou para ver o resultado.

“Ficou lindo!”, respondi surpreso.

“Eu disse que ficaria”, comentou ela, orgulhosa.

De fato, ficara lindo. O que antes se resumia a um emaranhado de flores e folhas mortas e sem graça, havia ganhado vida, após passar pelas mãos de minha esposa. Foi então que concluí que, nas mãos certas, até a morte tem sua beleza.

“Você devia trabalhar com isso”, comentei.

“Eu? Sei lá… Você acha?”

“Com certeza”, respondi antes de me retirar, segurando meu copo de café e deixando-a só, com um emaranhado de questões na sua cabeça.

Felipe Attie

Escritor, tatuador e cartunista. Autor do romance Morrendo Oito Horas Por Dia e dos quadrinhos Menino e Lobo.

Escritor, tatuador e cartunista. Autor do romance Morrendo Oito Horas Por Dia e dos quadrinhos Menino e Lobo.