TUDO QUE CABE NO BOLSO NÃO TEM PREÇO

Era um dia como outro qualquer, quando entrei na livraria para matar o tempo e me deparei com o livro $29,99, do escritor Frederic Beigbeder. Era o único exemplar à venda e, apesar de estar empoeirado e levemente danificado, eu me apaixonei pela sua capa (foda-se! Quem disse que não se julga um livro, também, pela capa?). Tomei um susto ao olhar o preço etiquetado, eu não tinha dinheiro para pagar sequer pela capa de que tanto havia gostado. …


SEM VILÕES, TODO HERÓI É UM SUJEITO NORMAL VESTINDO COLLANT

“Próximo!” gritou a balconista da farmácia aonde eu fui comprar insulina. Seu grito bateu no meu ouvido causando a mesma emoção do grito de gol numa final de Copa do Mundo. Afinal, eu estava há uns vinte minutos em pé, com meu filho no colo, aguardando para ser atendido. O problema não era a fila, que estava tão minúscula quanto a minha paciência. Mas sim, uma senhora que, justo naquela manhã, havia decidido ir à farmácia comprar todos os remédios necessários para passar o resto de sua vida.

Ela era uma criaturinha pequena, franzina e emburrada, que trajava um terninho que lembrava capinha de liquidificador. Mesmo distante, seu cheiro se mostrara um arqui-inimigo para minha rinite. A velha fedia a repartição pública. A tintura ruiva desbotada dos seus cabelos era desmascarada pela raiz grisalha, tornando sua cabeleira similar a um palito de fósforo que foi apagado antes da hora. Olhar para ela por quinze segundos era suficiente para fazer qualquer um questionar a ciência. Sua mão magrela e ossuda empunhava com firmeza a lista de remédios que se estendia parecendo um pergaminho medieval. Com a voz afiada e carregada de arrogância, ela recitava o nome dos remédios que deveriam ser capturados pelo farmacêutico e entregues a ela. Cada nome pronunciado sinalizava uma viagem de ida e volta do farmacêutico rumo às prateleiras. A dinâmica ganhou ar de gincana e qualquer um que estivesse assistindo a situação aguardaria pelo momento em que a velha gritaria: “Ponto para os meninos!”. …


Desde criança, eu tenho o hábito de inspecionar compulsivamente o meu corpo, centímetro por centímetro, à procura de algo que possa estar errado. Cada pinta encontrada, por exemplo, aumenta drasticamente as chances de câncer de pele — o que sempre foi um grande problema, considerando o fato de eu ser coberto por sardas. Certa vez, encontrei minúsculas saliências no dorso das minhas mãos e me aterrorizei com a ideia de elas se multiplicarem de maneira a tapar meus poros, impossibilitando-me de transpirar e, por fim, matando-me por retenção de líquidos. Mais tarde, descobri que isso é dermatologicamente chamado de verrugas planas, algo inofensivo e facilmente tratável. Outro exemplo da minha loucura veio acompanhado de contínuas dores de cabeça que me convenceram de que um tumor tomara conta do meu cérebro. …


Eu era uma criança perversa. Sempre estimulava a maldade entre meus amigos e executava todas as atitudes reprováveis ao olhar de um adulto. Incentivado por um eficaz espírito de porco, eu era capaz de transformar qualquer ocasião num campo de batalha — desde uma inocente brincadeira de pique-esconde até uma simples festa de aniversário. Quando o assunto era “quem começou a confusão?”, meu nome era o primeiro a ser citado. Eu me divertia semeando a discórdia e o choro dos meus amigos soava como música aos meus ouvidos. Ninguém estava imune à minha maldade. Esses e outros motivos me fizeram viver boa parte da infância acreditando ser a encarnação do anticristo. …


Fui um desses adolescentes tardios. Meu primeiro beijo foi aos 15 anos e minha primeira transa aos 20, quando todos os meus amigos já estavam cansados de pegar doenças venéreas.

Lembro que na escola, na hora do intervalo, enquanto meus colegas estavam interessados nas alunas de saias curtas, eu estava ocupado demais lendo um exemplar da revista Wizardo guia definitivo sobre quadrinhos!, dizia seu slogan — , ou o novo livro de tiras do Calvin & Hobbes. Não preciso dizer que eu era considerado uma aberração e que as meninas, na melhor das hipóteses, me chamavam de “esquisito”.

Minha sexualidade só foi despertar quando meu pai instalou TV a cabo na nossa casa, o que me permitia saborear alguns minutos de pornografia todas as noites através de um canal que direcionava sua programação noturna a um público menos conservador. …


Minha mãe é daquelas pessoas que sempre que vão contar uma história, acrescentam uma carga dramática tão intensa à narrativa, que faz com que sua veracidade se perca em meio a todos os trejeitos e adjetivos exagerados. Para ter uma ideia, sempre que o assunto é filhos pequenos, bebês ou algo do tipo, ela conta que me esqueceu dentro de um supermercado quando eu tinha apenas dois meses de vida. De acordo com a sua história, minha foto só não foi parar atrás de uma caixa de leite, porque um funcionário correu comigo no colo por dois quarteirões, passando esbaforido por entre os carros, pulou algo parecido com uma cerca elétrica e me devolveu a salvo para ela. …


Eu nunca gostei de estudar. Sempre fui um aluno preguiçoso de postura irresponsável e notas medíocres. A vida acadêmica nunca fez o meu tipo e eu nunca tive problemas em assumir isso. Mas frequentemente, quando a minha situação financeira aperta e sou forçado a catar moedas para comprar cerveja, eu me pergunto se as coisas estariam melhores para o meu lado se eu tivesse levado os estudos mais a sério. Então eu reflito sobre o período que passei dentro da faculdade e, automaticamente, me lembro dela: Camila Verdana, a professora que me ensinou o significado da palavra paixão.

Conheci a professora Camila no terceiro período da faculdade de jornalismo e logo que a vi entrar na sala de aula, eu soube que iria casar com ela. Lógico que eu estava errado. Mas vontade não me faltou. Ela era tão… tão… tão… “Esquisita!”, disse uma amiga, certa vez, enquanto conversávamos a respeito. “Como pode, alguém sentir atração por Camila Verdana?” Pois é, eu sentia. E minha amiga não era a única que parecia não entender minha paixão. Eu mesmo nunca entendi. …


O dia amanhecera exatamente como eu gostava, exatamente como uma manhã de outono. Dentro de casa, a única coisa que eu ouvia era o barulho da brisa que passava ao meu lado, deixando claro que eu era o único acordado. É um bom momento para escrever, pensei, lembrando-me de que era isso que fiquei de fazer, quando ouvi a voz rouca e desleixada do meu chefe dizendo “não precisamos mais de você”. Pelo menos eu teria tempo para me concentrar na escrita e me redescobrir. …


Era madrugada de primavera e eu estava assistindo ao clássico filme Psicose, quando os primeiros sinais da hipoglicemia começaram a bater no meu organismo. Lá fora, o vento e a chuva berravam com o resto do mundo. Dentro do meu quarto, minha namorada dormia esparramada quase me chutando pra fora da cama. Na televisão, Marion Crane tinha acabado de ser liberada pelo patrão após alegar estar sentindo fortes dores de cabeça. Dentro de mim, meu organismo começava implorar por um bocado açúcar. Olhei para as legendas do filme e percebi o quanto estavam distantes e embaralhadas. As letras pareciam dançar pela tela. Forcei a visão em busca de foco, mas de nada adiantou. …


A lembrança mais antiga que tenho da minha relação com Deus é a de minha mãe me obrigando a ir à igreja todos os domingos de manhã. “Você precisa ir à missa! Precisa se perdoar com Deus!”, dizia ela, como se eu fosse um dos romanos que pregara Jesus na cruz. “Mas o que eu fiz de tão grave? Tenho só 12 anos!”, eu berrava em defesa. “Não adianta, você vai pra Igreja! Você tem que ter bons costumes!”, decretava mamãe, com seu tradicional cigarro filtro amarelo pendurado no canto da boca. Sem escolha, eu pegava minha bíblia e me arrastava até a Igreja, desgraçando minha mãe, Deus e todo o universo celestial por me fazerem perder mais uma bela manhã de domingo. …

About

Felipe Attie

Não tem medo de falar o que pensa, mas se assusta com o que pensam a seu respeito.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store